Numa entrevista exclusiva ao programa Sob Escuta, da Rádio Observador, a figura central da oposição moçambicana e líder do partido ANAMOLA, Venâncio Mondlane, teceu duras críticas à governação actual.
A menos de um mês de se sentar no banco dos réus para enfrentar acusações que podem resultar numa pena de até 20 anos de prisão, o político acusou directamente o Presidente da República, Daniel Chapo, de acumular o maior registo de assassinatos de opositores políticos na história do país.
Com o início do julgamento agendado para 17 de novembro de 2026, Mondlane responde por acusações de apologia pública ao crime, incitamento à desobediência colectiva e instigação ao terrorismo, decorrentes da vaga de protestos pós-eleitorais de 2024. Apesar da gravidade das acusações, o líder oposicionista afirma estar tranquilo e confiante na sua defesa. Segundo sustentou, a acusação do Ministério Público apresenta graves fragilidades técnico-jurídicas ao longo das suas cerca de 40 páginas, motivo pelo qual a sua equipa exigiu ao Tribunal Supremo que todas as sessões do julgamento sejam transmitidas em directo pela internet.
Ao fazer o balanço do actual mandato presidencial, Mondlane destacou uma escalada de violência sem precedentes em Moçambique, comparando o cenário de repressão ao das presidências anteriores de Samora Machel, Joaquim Chissano, Armando Guebuza e Filipe Nyusi. O político denunciou que o seu jovem partido, com apenas um ano de existência, contabiliza já 58 quadros seniores assassinados a tiro, citando como exemplo recente a morte de Ilídio Facitela, uma das suas principais testemunhas no processo e mobilizador na província de Inhambane.
No plano financeiro e internacional, o oposicionista assinalou como victória a recente decisão do Tribunal Supremo que ordenou o descongelamento das suas contas bancárias. Para Mondlane, a revogação dessa medida de coação enfraquece a tese da acusação, uma vez que nunca foram apresentados indícios de crimes financeiros ou branqueamento de capitais. Paralelamente, em visita ao Parlamento Europeu a convite do grupo Renew Europe, o líder da ANAMOLA entregou o relatório Bleeding Democracy, alertando os deputados europeus para a violação dos direitos humanos e criticando a exclusão da oposição no Diálogo Nacional Inclusivo financiado pela União Europeia.
Apesar da perspetiva real de condenação, Venâncio Mondlane descartou categoricamente qualquer regresso aos protestos de rua, garantindo que honrará o compromisso de paz assumido com o Governo. O líder oposicionista assegurou que a sua actuação permanecerá estritamente focada na via política, constitucional e parlamentar, reafirmando que a ANAMOLA possui estrutura e quadros preparados para dar continuidade ao projecto político, mesmo perante a sua eventual prisão.
