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Activista Ugandesa violada sexualmente pelas autorides Tanzaniana

Aghather Atuhaire é mais do que uma sobrevivente. É uma combatente pela verdade que desafia, com a sua voz ferida mas firme, o silêncio imposto pelos regimes autoritários da África Oriental. Na semana passada, tornou-se o rosto visível da brutalidade do Estado tanzaniano — um rosto que o mundo já tinha aplaudido no palco do Oslo Freedom Forum (OFF) de 2024 e voltou a escutar em 2025, com ainda mais urgência.

O seu crime? Denunciar a repressão brutal levada a cabo pelo regime da Presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, e prestar solidariedade a Tundu Lissu, político e activista preso sob a acusação forjada de “traição à pátria”. Atuhaire, advogada e activista oriunda do Uganda, participou como observadora no julgamento de Lissu no passado dia 19 de Maio, mas o seu testemunho mais poderoso viria dias depois — com o corpo ainda marcado pela dor.

Após o julgamento, já no hotel onde se hospedava, foi raptada por agentes uniformizados da segurança do Estado tanzaniano. Entregaram-na a civis, membros de uma unidade clandestina de tortura. Foi levada para um local remoto — que ela descreve como um campo montado para o terror — onde viveu um dos episódios mais macabros e desumanos da repressão estatal contemporânea.

Despiram-na, penduraram-na de cabeça para baixo numa posição humilhante, amarrando pulsos e tornozelos de forma a impedir qualquer movimento. Estupraram-na. Espancaram-na. Introduziram objectos no seu corpo enquanto riam e filmavam o acto. Quatro dias de horror: o primeiro de violência física extrema; os restantes de tortura psicológica, isolamento e medo da morte.

“Não sabia se sairia viva”, confessou com a voz trémula na sua intervenção no OFF desta quarta-feira. Mostrou cicatrizes, falou da dor e do medo, mas também da resistência. Agather manca. Carrega feridas profundas, físicas e emocionais. Ainda assim, continua a denunciar. Continua a expor. Continua a quebrar o monopólio da verdade.

Foi libertada após pressões internacionais e internas. Mas, com medo de represálias mediáticas no aeroporto — onde poderiam ser expostas publicamente as suas lesões — as autoridades tanzanianas optaram por uma rota clandestina: vendada, foi transportada por mais de 1.500 km até à fronteira com o Uganda e aí abandonada.

A sua história é um testemunho do que significa ser mulher, activista e africana sob regimes que se pretendem democráticos mas operam com lógica de terror. Agather é uma voz incómoda para o regime de Yoweri Museveni, presidente do Uganda há 39 anos e agora empenhado em assegurar que o seu filho o suceda no poder. E agora, tornou-se também uma ameaça para a narrativa fabricada por Samia Suluhu Hassan, inicialmente elogiada como reformista, mas cuja acção brutal contra opositores políticos revela um autoritarismo frio e estratégico.

Conheci Agather no segundo dia do OFF. A sua coragem não é retórica: é real, vivida no corpo, gravada na pele. Quando a entrevistei, evitava repetir os detalhes, mas falou o suficiente para percebermos que os regimes não têm apenas medo das suas palavras — têm pavor da sua persistência.

E apesar de tudo, ela fala. Fala para Moçambique. Fala para a Tanzânia. Fala para o mundo. Porque há histórias que, por mais dor que carreguem, precisam de ser contadas — e ouvidas. Dinis Tivane


Nota do autor: A violência sexual usada como arma política é uma violação grave dos direitos humanos e precisa de uma resposta firme da comunidade internacional. A história de Agather Atuhaire exige justiça, mas acima de tudo, exige que não nos calemos.

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