Um novo relatório do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) revela um cenário alarmante no norte de Moçambique, onde os civis continuam a ser o principal alvo do conflito.
A situação de segurança no norte de Moçambique sofreu um sério agravamento no primeiro semestre deste ano. Segundo o relatório “Moçambique: O custo da inação”, publicado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a região registou um aumento de 10% nos incidentes armados em comparação com o mesmo período de 2025.
Entre janeiro e junho de 2026, foram contabilizados mais de 400 episódios de violência, incluindo homicídios, pilhagens, destruição de habitações e raptos.
Civis no Alvo: Raptos e Recrutamento Forçado de Crianças
O documento da ONU destaca um padrão cada vez mais preocupante: os sequestros deixaram de ser incidentes isolados e tornaram-se uma prática sistemática utilizada por grupos armados para cobrança de resgates e recrutamento forçado, afetando gravemente crianças.
“O alvo desta violência são os civis, e não danos colaterais”, sublinha o relatório do OCHA, alertando para a expansão dos ataques a distritos que anteriormente tinham reduzida exposição ao conflito.
A violência prolongada tem fragilizado as estruturas familiares e comunitárias na província, rica em gás natural, que desde 2017 enfrenta uma insurgência armada. Segundo dados de organizações internacionais, o conflito já causou mais de 6.600 mortes e forçou o deslocamento de cerca de 1,2 milhão de pessoas.
O Impacto Humano em Números
Atualmente, cerca de 1,38 milhão de pessoas enfrentam as consequências directas das deslocações forçadas em Cabo Delgado:
- 662 mil deslocados internos;
- 722 mil habitantes que tentaram regressar às suas zonas de origem.
Segundo avança O País, para a ONU, o regresso nem sempre significa estabilidade. A destruição de infra-estruturas, a perda de meios de subsistência e a degradação dos serviços públicos impedem que as populações recuperem a normalidade.
O contexto de instabilidade tem intensificado riscos sociais graves, como a separação de famílias, violência baseada no género, casamentos prematuros e exploração sexual como estratégias desesperadas de sobrevivência.
Défice Financeiro Ameaça Resposta Humanitária
A par do agravamento da violência, a assistência humanitária enfrenta uma crise severa de financiamento.
Em agosto, o Plano de Necessidades e Resposta Humanitária para Moçambique contava com apenas 43% dos fundos necessários — tendo recebido 227 milhões de dólares dos 534 milhões solicitados.
Sectores mais afectados pelo corte de verbas
- Logística e Educação: Fortemente penalizadas pela falta de recursos.
- Nutrição e Assistência Alimentar: Em vários distritos críticos, a entrega de comida foi reduzida para uma distribuição a cada dois meses, cobrindo somente 39% das necessidades calóricas mínimas da população.
A ONU faz um apelo urgente à comunidade internacional para evitar o colapso do apoio humanitário no país:
“O custo da inação é suportado pelas pessoas, e não pelos programas. As lacunas de financiamento significam menos refeições, menos serviços e menos oportunidades de recuperação antes da próxima crise.”
