Amnistia Internacional insta o governo investigar o envenenamento da jornalista  Selma Inocência

A organização internacional de direitos humanos Amnistia Internacional lançou um apelo urgente às autoridades moçambicanas para que investiguem de forma célere e imparcial a suspeita de envenenamento da jornalista moçambicana Selma Inocência Marivate, de 42 anos. A profissional, atualmente residente na Alemanha, acredita ter sido intoxicada com metais pesados durante uma visita de trabalho a Maputo, em março de 2025.

Segundo o relatório divulgado a 31 de julho, Selma deslocou-se a Moçambique no início de março para ministrar uma formação a jornalistas locais. Durante a estadia, começou a sentir que a sua segurança poderia estar comprometida, o que a levou a antecipar o regresso ao país de residência. Poucos dias após regressar à Alemanha, começou a manifestar sintomas graves, como fraqueza muscular, náuseas, dores nos rins e perda de equilíbrio.

Após várias análises, um exame toxicológico realizado em Berlim revelou a presença de metais pesados — como mercúrio, cádmio, urânio e tálio — em concentrações descritas como “fisiologicamente inexplicáveis”. A jornalista encontra-se em estado crítico e está a ser submetida a um tratamento intensivo de quelação, utilizado em casos de intoxicação por metais pesados. Devido ao seu estado de saúde debilitado, está atualmente impossibilitada de trabalhar ou continuar os estudos.

O caso de Selma ocorre num contexto de elevada tensão política em Moçambique, marcado por protestos pós-eleitorais e uma onda de violência contra críticos do governo. Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, quase 400 pessoas terão sido mortas em confrontos com as forças de segurança, que também foram acusadas de detenções arbitrárias e uso excessivo da força. Durante este período, jornalistas e membros da oposição foram especialmente visados.

Este não é um caso isolado. Em dezembro de 2024, o ativista moçambicano Wilker Dias, coordenador da Plataforma DECIDE, também denunciou ter sido envenenado durante uma visita a Maputo, com base em provas laboratoriais. No entanto, até hoje, nenhuma investigação foi iniciada pelas autoridades.

A Amnistia Internacional apela ao Procurador-Geral da República, Américo Julião Letela, para que tome medidas imediatas, garantindo uma investigação independente que leve à responsabilização dos autores. A organização exige ainda uma condenação pública contra ataques e intimidações a jornalistas e defensores dos direitos humanos, reforçando a necessidade de proteger a liberdade de imprensa e de expressão no país.

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O caso está também a ser seguido pela polícia alemã, mas, dado que o envenenamento terá ocorrido em território moçambicano, a responsabilidade pela investigação recai sobre as autoridades locais.

As cartas de apelo podem ser enviadas à Procuradoria-Geral da República até 30 de janeiro de 2026.

Crédito: https://www.amnesty.org/en/documents/afr41/0154/2025/en/

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