
Durante décadas, circulou nacionalmente a existência de uma fábrica de televisores “Made in Mozambique”, frequentemente associada ao período de governação de Joaquim Chissano (1986–2005) e a uma parceria com a entidade “INCA”. A história, embora repetida em espaços de opinião, o mito reflete uma verdade mais profunda: o colapso da indústria moçambicana e a estagnação de uma visão de desenvolvimento industrial sustentável.
Nos anos pós-independência, Moçambique apostou em iniciativas de industrialização modesta, incluindo a montagem de rádios e aparelhos eletrónicos. A extinta Fábrica de Aparelhos Electrónicos (FAE), com sede em Maputo, chegou a produzir os populares rádios “Xirico” nas décadas de 1970 e 1980, com tecnologia da antiga RDA (Alemanha Oriental). Paralelamente, existiram esforços pontuais para montagem de televisores, embora nunca se tenha consolidado uma unidade com esse foco exclusivo.
Estas fábricas, incluindo outras como a têxtil, a Vidreira de Moçambique e a MABOR (pneus), colapsaram durante a guerra civil (1976–1992) ou nos anos subsequentes, sem nunca terem sido revitalizadas. A perda desse tecido industrial marcou um ponto de viragem: Moçambique transformou-se num país altamente dependente de importações e vulnerável à instabilidade externa.
Num momento em que países vizinhos avançam com projectos ferroviários de alta velocidade e cadeias de valor regionais, Moçambique volta a ser notícia por decisões controversas. Uma das mais criticadas recentemente foi a aquisição de 100 tratores com atrelados para transporte de pessoas em zonas rurais, numa tentativa de melhorar a mobilidade populacional. Especialistas consideram a medida um exemplo de “solução improvisada”, que ignora a necessidade estrutural de reabilitação de estradas e acessos básicos.
“A questão não é só a compra dos tratores, mas o que ela simboliza: uma gestão de recursos centrada em paliativos, e não em investimento estratégico”, afirma o nosso comentador. “Sem vias transitáveis, sem indústrias funcionais, e com corrupção endémica, estamos a empurrar o país para um ciclo de estagnação.”
Dados oficiais apontam para prejuízos superiores a 250 milhões de meticais por corrupção só no primeiro trimestre de 2025, resultado de casos envolvendo peculato, abuso de cargo e má gestão. Estes desvios comprometem severamente a capacidade do Estado de investir em sectores produtivos e infraestruturas duradouras.
A tentativa de digitalização da Televisão de Moçambique (TVM) tem sido apresentada como símbolo de modernização, mas especialistas alertam: tecnologia sem base industrial é consumo, não produção. A ausência de fábricas, unidades de montagem ou polos tecnológicos reais reflete um modelo económico baseado na extracção de recursos e importação de produtos acabados — cenário que limita o emprego, a inovação e a autonomia do país.
Com quase dois terços da população a viver abaixo da linha da pobreza, Moçambique ocupa posições muito baixas no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O discurso oficial de progresso contrasta com uma realidade marcada por nepotismo, ineficiência e oportunidades perdidas.
Sem uma aposta clara na boa governação, combate à corrupção e revitalização industrial, Moçambique arrisca-se a continuar a viver de memórias — reais ou inventadas — e a perder mais uma geração no sonho adiado de independência económica.