
É possível criar verdadeiros exércitos de “cidadãos falsos” na internet. Eles podem ser simples bots, mas também agentes de inteligência que operam disfarçados em perfis aparentemente normais. Assumem identidades de revolucionários, apoiadores da oposição, activistas, simpatizantes do governo ou “da causa” para ganhar a confiança de internautas genuínos. Leia isto até ao fim.
Essas contas comentam em perfis de activistas influentes, de opositores ou de analistas políticos, sempre aparentando alinhamento e solidariedade. O objectivo é simples: aproximar-se, conquistar confiança e, mais tarde, infiltrar-se nos círculos para extrair informação ou até neutralizar vozes críticas.
Alguns desses “soldados digitais” são, na verdade, apresentados como influenciadores, activistas. Mas cumprem apenas um papel, como actores num palco. Representam personagens convincentes, declaram-se defensores de causas nobres, exibem acesso a informações privilegiadas (é aqui onde se deve prestar atenção) e conquistam a empatia do público. Com isso, conseguem que os seus conteúdos sejam replicados por influenciadores genuínos. Tudo não passa de encenação estratégica.
Desta forma, é fácil infiltrar-se em grupos de mobilização social e até alcançar posições de destaque em organizações e movimentos políticos ou civis. Eu própria identifiquei muitas dessas personagens nas últimas manifestações recentes. Algumas continuam activas, espalhando mensagens, que contém slogans partidários, incitando golpes de Estado, defendendo violência extrema e cultivando ódio (o que constituem actos criminais). Pessoas genuínas seguem, replicam e comentam na mesma perspectiva e depois se questionam como são visitadas por agentes da polícia que os detém.
Os seus perfis carregavam imagens de opositores mortos ou principais opositores, fazendo-se passar por apoiadores leais. É compreensível que muitos, sem perceber, acabem a partilhar ou acreditar nessas narrativas como se fossem vozes legítimas. Muitas delas não são.
É um trabalho coordenado, não duvide. Em muitos casos, são empresas contratadas para alinhar narrativas e distribuí-las entre as suas milícias digitais. Este estudo da Universidade de Oxford, cuja capa eu postei aqui com esta nota, mostra este fenómeno em países como Angola, África do Sul, China, Cuba, Rússia, Ruanda e Zimbabwe (próximos de Moçambique). Se a pesquisa fosse feita hoje, certamente incluiria Moçambique. Estas operações servem para sabotar eleições, fragilizar a democracia e aumentar violações de direitos humanos, entre outros fins.
O alvo principal são sempre a oposição, os activistas e a sociedade civil. A estratégia é clara: ridicularizar vozes críticas, descredibilizar lideranças, semear confusão e transformar discursos legítimos em memes ou cortes manipulados que circulam como se fossem escândalos que toda a gente deve saber. O objectivo é sempre o mesmo: pintar a oposição como desorganizada, dividida e pouco confiável.
As táticas de infiltração variam: perfis falsos que se fazem passar por cidadãos comuns, apoiadores de causas, ou até empresas, usando imagens roubadas de pessoas em outros países. É verdade que plataformas como o Facebook têm feito esforços para remover esses perfis, mas o desafio é gigantesco.
Além disso, circulam áudios e supostos vazamentos, que muitas vezes são fabricados, e são lançados em momentos de crise e rapidamente disseminados em blogs e redes. Você já se perguntou se os áudios de conversas de policiais após a morte de agente são genuínos? Porquê você partilha?
Importa lembrar: nem todos os blogs ou influenciadores são genuínos. Alguns existem apenas para produzir propaganda, que depois é replicada por canais autênticos sem que percebam a origem manipulada.
Falo com conhecimento de causa. Antes de adoecer, trabalhei numa organização internacional que monitorava essas milícias digitais, sobretudo na esfera política. É também a minha área de estudo na universidade. Portanto, este não é um alerta baseado em suposições e achismos.
Se quer proteger-se, informe-se. Leia minuciosamente este estudo e outros similares, investigue os perfis e nunca parta do princípio de que está a falar com uma pessoa genuína online. A regra é simples: desconfie sempre. Selma Inocência
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