
Em meio à pobreza extrema e à escassez de alimentos, milhares de haitianos continuam a recorrer a um recurso tão inusitado quanto trágico: os chamados “biscoitos de lama”, feitos à base de barro, sal e óleo vegetal. A prática, registada há mais de uma década em bairros como Cité Soleil, nos arredores de Porto-Príncipe, permanece um símbolo doloroso da crise humanitária que assola o país.
Conhecidos localmente como bonbon tè, estes discos de barro são moldados manualmente e deixados a secar ao sol. Apesar de não possuírem qualquer valor nutricional, muitos afirmam que ajudam a “acalmar” o estômago vazio e a reduzir a dor da fome. Em mercados de rua, é comum ver mulheres a venderem dezenas desses “biscoitos”, produzidos com argila amarelada retirada das colinas de Hinche.
“Quando a minha mãe não tem o que cozinhar, comemos isto. Engana o estômago”, contou uma jovem de 16 anos à imprensa internacional, revelando a dimensão da tragédia.
O Haiti enfrenta há anos uma sucessão de crises políticas, económicas e naturais que agravaram a fome e a insegurança alimentar. Segundo agências humanitárias, mais de metade da população vive com menos de dois dólares por dia, e milhões dependem de ajuda internacional para sobreviver.
Autoridades de saúde alertam, no entanto, para os riscos da prática. O consumo frequente destes “biscoitos” pode causar graves deficiências nutricionais, infeções intestinais e outros problemas de saúde.
Enquanto o país luta para garantir alimentos básicos à sua população, os “biscoitos de lama” tornaram-se um símbolo cruel da desigualdade global — um lembrete de que, em pleno século XXI, ainda há quem precise comer terra para sobreviver.
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