
As recentes nomeações presidenciais para o Conselho de Estado e o Conselho Nacional de Defesa e Segurança revelam mais do que simples actos administrativos — revelam uma tendência preocupante de perpetuação de figuras históricas em detrimento da renovação política e intelectual tão necessária no Moçambique contemporâneo.
O Presidente da República voltou a recorrer a nomes de peso do passado, como Alberto Chipande (85 anos), Graça Machel (79 anos), Mariano Matsinhe (87 anos) e Joaquim Muhlanga (82 anos), para ocuparem posições em dois dos mais estratégicos órgãos consultivos do país. A média de idades dos nomeados ultrapassa os 80 anos — um retrato claro de uma elite que se recusa a dar lugar à nova geração.
Estas escolhas, embora revestidas de legalidade constitucional, levantam questões sérias sobre a funcionalidade e eficácia desses órgãos. Num país onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos, a liderança estratégica do Estado continua a ser confiada quase exclusivamente a veteranos da luta de libertação, muitos dos quais afastados há décadas da vida activa e do debate político moderno.
O Conselho de Estado, por definição, deveria reflectir a diversidade de visões e experiências do país. No entanto, o que vemos é uma lógica de preservação do poder dentro de um círculo fechado e envelhecido, onde a lealdade histórica parece pesar mais do que a capacidade de pensar o futuro. A inclusão de figuras como Eduardo Silva Nihia e Felizarda Paulino não chega para disfarçar a falta de pluralidade geracional e ideológica.
O mesmo se aplica ao Conselho Nacional de Defesa e Segurança, cuja composição não espelha os desafios actuais do país: terrorismo em Cabo Delgado, cibersegurança, tráfico de drogas e crime organizado. Estas são ameaças que exigem uma abordagem moderna, com vozes técnicas, académicas e jovens, capazes de propor soluções à altura da complexidade do mundo actual. Confiar tais dossiers a figuras que formaram-se em contextos da Guerra Fria levanta dúvidas sobre a capacidade de resposta do próprio Estado.
Não se trata de negar o valor histórico dos nomeados. Pelo contrário — muitos deles são figuras incontornáveis na história da nação. Mas há uma diferença entre reverência e dependência. O país não pode continuar refém de um passado glorioso, enquanto falha em construir um presente funcional e um futuro sustentável.
A longevidade institucional sem renovação acaba por ser uma forma disfarçada de imobilismo. Num contexto em que se exige mais agilidade, mais transparência e mais participação cidadã, manter os centros de aconselhamento presidencial nas mãos de octogenários representa um risco político e uma desconexão perigosa entre Estado e sociedade.
Chegou o momento de repensar estes conselhos. De abrir espaço para novos rostos, novas ideias, novas gerações. De fazer do Estado uma instituição do presente, e não apenas um monumento do passado.
