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Criança nasce também criança no hospital central de Nampula

Na manhã calma deste domingo, o Hospital Central de Nampula (HCN) — o maior centro de referência do norte de Moçambique — foi palco de um dos partos mais marcantes e dolorosos dos últimos tempos: uma menina de apenas 10 anos, identificada pelas iniciais E.J., deu à luz um bebé do sexo feminino.

O parto, realizado por via normal, foi conduzido com perícia e sensibilidade por uma equipa médica que lutou para salvar duas vidas — a da jovem mãe e a da recém-nascida.

A menor, oriunda do distrito de Mecuburi, chegou à maternidade com complicações, mas a rápida intervenção dos profissionais de saúde evitou o pior. Por trás da eficiência clínica, porém, esconde-se uma realidade inquietante: uma criança viu a sua infância interrompida para assumir um papel que pertence ao mundo dos adultos.

Este caso lança novamente luz sobre a urgência de reforçar as mensagens de sensibilização em torno da maternidade e paternidade responsáveis, do direito à infância e do papel das famílias e comunidades na protecção das crianças.

Segundo contou Acácio Januário, irmão mais velho da menina, a gravidez foi resultado de uma violação. O presumível autor do crime encontra-se já detido. A vítima terá ocultado a situação durante algum tempo, alegadamente por medo e ameaças do agressor. O caso foi descoberto apenas por volta do quarto mês de gestação.

“Conhecendo o risco que ela podia correr devido à idade, já estávamos sem esperança. Mas, pela graça de Deus, o milagre aconteceu. Os médicos foram instrumentos nas mãos do poder divino e o impossível tornou-se possível”, relatou Acácio, visivelmente emocionado.

“Já estava tudo preparado para uma cirurgia. A menina já se encontrava no bloco operatório, e de repente entrou em trabalho de parto. Foi normal. Estou triste porque a infância da minha irmã foi interrompida”, acrescentou.

A educação, o diálogo e o amor dentro das famílias continuam a ser o primeiro escudo contra práticas que comprometem o futuro das meninas.

O Hospital Central de Nampula, enquanto instituição de referência e guardião da vida, aproveitou a ocasião para renovar o apelo à harmonia social e à comunicação no seio familiar.

“Que pais e encarregados de educação falem com os seus filhos; que orientem, escutem e eduquem com firmeza. Que as raparigas mantenham o foco na escola, nos livros e nos sonhos, porque o tempo do amor responsável deve chegar depois da formação”, lê-se numa nota divulgada pela instituição.

Este episódio recorda à sociedade que cada criança tem o direito de crescer brincando, aprendendo e sonhando — e que é dever de todos garantir que nenhuma infância seja interrompida antes do tempo. HCN

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