
Beira – 5 de Agosto de 2025
A comunidade de Ndunda 2, na cidade da Beira, continua à espera de água potável, contrariando a promessa feita por Albino Forquilha, presidente do partido PODEMOS, aquando da entrega de um furo de água naquela zona periférica.
No acto público de inauguração, Forquilha garantiu aos moradores que, num prazo de sete dias, a água inicialmente salgada se tornaria doce e apropriada para o consumo humano. No entanto, passadas várias semanas, a água do furo continua imprópria para consumo, para profunda frustração dos residentes locais.
“Disseram-nos que era só esperar uma semana, que a água ia melhorar, mas até agora continua salgada e não dá para beber”, lamenta um dos moradores, visivelmente desapontado com a situação.
Rejeição desde o início
Desde o início, a maioria da população rejeitou a construção do furo, não apenas por dúvidas técnicas, mas sobretudo por razões políticas ligadas à figura de Albino Forquilha, que é atualmente acusado por muitos como “traidor do povo”.
Para a população local, o sentimento de desconfiança agravou-se após a rutura pública entre Forquilha e Venâncio Mondlane, figura carismática e ex-candidato presidencial do PODEMOS, que nas eleições de 2024 ficou em segundo lugar com cerca de 24 % dos votos. Durante a campanha, Forquilha e Mondlane haviam assinado um acordo político em Manhiça, no qual prometiam unidade e renovação para o país. No entanto, após as eleições, tudo mudou.
Ruptura política e acusações
A relação entre os dois líderes deteriorou-se rapidamente após as eleições. Forquilha pressionou pela tomada de posse imediata dos deputados do PODEMOS, ao passo que Mondlane defendia o adiamento como gesto de respeito às manifestações populares que denunciavam fraude eleitoral. A divergência gerou um ultimato de Mondlane e, mais tarde, o seu afastamento por Forquilha, sob alegações de que o ex-candidato presidencial teria violado promessas e cláusulas internas do acordo político.
O público, especialmente nas zonas onde Mondlane detinha forte apoio popular, passou a encarar Forquilha como alguém que usou o nome e o capital político do ex-candidato apenas para conquistar espaço parlamentar. Nas redes sociais e nos comícios populares, Forquilha foi inclusive comparado a Judas Iscariotes, símbolo da traição.
Furo de água visto como manobra
Foi neste clima de tensão e perda de confiança que Albino Forquilha entregou o furo de água em Ndunda 2. Para muitos moradores, o projecto foi interpretado como uma manobra política para recuperar apoio nas bases, mas a iniciativa falhou duplamente: tanto pelo contexto político desgastado como pela ineficácia técnica da obra, já que a água continua salgada e imprópria para o consumo humano.
A comunidade, que inicialmente acolheu a iniciativa com reservas, sente-se agora completamente enganada e abandonada, enfrentando sérias dificuldades no acesso a água potável.
Contactadas, fontes próximas ao PODEMOS não avançaram qualquer explicação técnica sobre a persistência da salinidade na água, nem forneceram nova previsão para a resolução do problema.
A situação em Ndunda 2 é um retrato de como a fragilidade da confiança política, somada à execução ineficaz de projectos sociais, pode agravar ainda mais o descontentamento de comunidades vulneráveis. A polémica entre Forquilha e Mondlane, longe de se resolver internamente, teve reflexos diretos nas populações locais, onde promessas não cumpridas e disputas de poder são sentidas com impacto real e quotidiano.